Futurália: o que aprendemos ao conversar com jovens sobre as profissões que constroem o mundo
- Segmento Urbano
- 16 de mar.
- 5 min de leitura
A Futurália é um dos maiores eventos em Portugal dedicados à educação, formação e orientação profissional. Durante vários dias, milhares de estudantes, famílias e instituições visitam a feira à procura de respostas para uma pergunta essencial: que caminhos profissionais existem e que futuro podem construir através deles?
O Segmento Urbano esteve presente nesta edição, através do Build Lab™, com um objetivo claro: contribuir para dar a conhecer as profissões ligadas à arquitetura, engenharia e construção (AEC). Trata-se de um setor essencial para o funcionamento das cidades e da sociedade, mas que continua muitas vezes pouco visível para muitos jovens.
A presença no evento permitiu-nos ter contacto direto com várias centenas de estudantes de diferentes idades e contextos. Essas conversas revelaram alguns padrões interessantes sobre a forma como o setor é percecionado e sobre aquilo que ainda permanece pouco conhecido quando muitos jovens pensam no seu futuro profissional.
Estas observações resultam das conversas informais realizadas ao longo dos vários dias da feira. Foram também recolhidos dados através de um questionário respondido por 200 jovens, que ajudam a identificar algumas tendências que vale a pena partilhar e refletir enquanto setor.
O que observámos nas conversas com os jovens
A diversidade de profissões ainda pouco conhecida
Uma das primeiras constatações foi o conhecimento ainda limitado sobre a diversidade de profissões existentes no setor.
Quando perguntávamos que profissões associavam à construção ou à criação de cidades, a maioria dos jovens referia apenas três: arquiteto, engenheiro e “trolha”.
Esta visão simplificada contrasta com a realidade atual do setor, que envolve uma grande diversidade de funções técnicas e especializadas. Entre elas encontram-se áreas como modelação digital, planeamento de obra, gestão de projeto, tecnologias de construção, técnicos especializados em múltiplas áreas ou especialistas em sustentabilidade e eficiência energética.
A distância ao mundo físico da construção
Outra observação relevante foi a distância entre muitos jovens e a realidade física do ambiente construído.
Apesar de passarmos grande parte da nossa vida em edifícios, casas, escolas, hospitais ou espaços públicos, muitos estudantes referiram nunca ter refletido sobre quem os projeta, quem os planeia ou quem os constrói.
Esta falta de ligação ao mundo físico torna-se particularmente relevante num momento em que as cidades enfrentam desafios complexos relacionados com sustentabilidade, habitação e transformação urbana.
O receio de errar e a curiosidade que surge quando começa a conversa
No stand do Segmento Urbano existia uma pequena dinâmica que ajudava a iniciar conversas: uma roda que, ao ser rodada, gerava uma pergunta simples sobre o setor.
Vários jovens mostravam algum receio em rodar a roda. Não por falta de interesse, mas por receio de não saber responder à pergunta que pudesse surgir.
Este pequeno momento revelou algo interessante: mais do que falta de curiosidade, existe muitas vezes um receio de errar ou de não saber a resposta certa. Quando a roda finalmente girava e a conversa começava, rapidamente se percebia que a curiosidade estava presente. Bastava apenas um pequeno incentivo para iniciar a descoberta.
Como muitos jovens encaram a escolha profissional
Outra observação recorrente nas conversas foi a forma como muitos jovens encaram a escolha profissional sobretudo através de dois critérios: as notas necessárias e as oportunidades profissionais associadas à área.
Profissões como engenharia informática surgiam frequentemente como referência, muitas vezes associadas a estabilidade ou retorno financeiro.
Este foco nas profissões mais visíveis acaba por tornar menos conhecidas muitas carreiras do setor AEC que podem ser igualmente interessantes e gratificantes. Em muitos casos, estas profissões oferecem boas oportunidades profissionais, evolução técnica e a possibilidade de participar diretamente na criação e transformação das cidades.
Uma percepção que se confirmou
Antes da presença do Segmento Urbano na Futurália já existia a percepção de que muitas profissões ligadas à arquitetura, engenharia e construção continuam pouco conhecidas entre os jovens.
A experiência no evento reforçou essa ideia.
Curiosamente, este desconhecimento não resulta de falta de interesse. Sempre que explicávamos melhor o que envolve o setor — desde o uso de tecnologias digitais até ao impacto que estas profissões têm na vida das pessoas e na construção das cidades — a reação mais comum era surpresa.
Frases como “Nunca tinha pensado nisso” surgiram frequentemente nas conversas com os visitantes.
Isto sugere que o desafio não está apenas na atratividade das profissões, mas sobretudo na visibilidade que lhes é dada durante os processos de orientação escolar e profissional.
O que despertou mais interesse
Alguns dos dados recolhidos no stand ajudam a confirmar esta percepção.
Uma parte significativa dos participantes referiu que não conhecia a diversidade de profissões do setor antes da atividade realizada no stand. Após o contacto com a dinâmica apresentada, mais de metade mostrou interesse em saber mais sobre estas áreas profissionais.
Este resultado sugere que o contacto direto com a realidade do setor pode despertar curiosidade e interesse entre os jovens.
A perspectiva dos professores
Além dos estudantes, tivemos também oportunidade de conversar com vários professores que visitaram o stand.
Muitos referiram algo que ouvimos repetidamente ao longo do evento: existe ainda um estigma associado às profissões ligadas à construção.
Apesar de serem áreas essenciais para o funcionamento das cidades e da economia, continuam muitas vezes a ser percecionadas de forma redutora ou pouco valorizada no imaginário coletivo.
Curiosamente, vários professores fizeram também uma observação interessante sobre a forma como esta perceção evolui ao longo da infância.
Quando são crianças, muitos jovens demonstram curiosidade natural pelo mundo da construção. Observam obras, interessam-se por máquinas ou pela ideia de desenhar e construir coisas.
No entanto, à medida que avançam na escola e começam a pensar no seu futuro profissional, essa curiosidade inicial tende muitas vezes a desaparecer ou a ser substituída por outras referências consideradas mais seguras ou socialmente valorizadas.
Conversas sobre o futuro das profissões técnicas
Durante a Futurália realizámos também duas talks dedicadas ao futuro das profissões técnicas e ao papel que estas terão na construção das cidades nas próximas décadas.
Estas sessões permitiram aprofundar alguns dos temas incluindo a evolução tecnológica do setor, o impacto que profissões ligadas ao setor AEC têm na forma como vivemos e as competências necessárias ao sucesso em qualquer carreira.
Aproximar os jovens das profissões técnicas
A experiência na Futurália reforçou uma ideia simples: é necessário aproximar mais os jovens da realidade das profissões técnicas.
Isso pode passar por iniciativas como maior presença do setor nas escolas, contacto direto com profissionais, divulgação mais clara das diferentes funções existentes e exemplos concretos de projetos e percursos profissionais.
Uma reflexão final
A experiência na Futurália deixa uma pergunta que merece reflexão.
Como é possível que um setor tão essencial, que influencia diretamente a forma como vivemos, trabalhamos e habitamos as cidades - continue ainda tão pouco conhecido por muitos jovens?
Talvez o primeiro passo seja precisamente este: abrir mais portas entre o mundo da educação e o mundo real das profissões que constroem as cidades.







































